terça-feira, 13 de setembro de 2011

Flor de Açafrão


Muita gente tem essa mania de comparar seu amor ao sol, aos raios de sol, ou qualquer coisa que lembre o calor. Não é meu caso. Meu amor é diferente. (Ainda chamo “meu amor” porque Eros é simplesmente muito chato pra ir embora ao meu comando. Mas não passa disso: um amor inconveniente, insistente.) Sempre o comparei ao inverno. E até chamava ele assim, por um motivo acolá. Por algo que nós sabemos, algo tão nosso que não faz sentido pra mais ninguém, todos torciam o rosto quando tentávamos explicar. Dividimos sempre esse amor declarado pelo tempo frio, então era coerente. Ele era meu Inverno particular.

E eu era outro personagem que, enfim, não citarei aqui. Já não faz tanto sentido assim. O que me faz mais sentido agora é me chamar de açafrão, que possui a flor de inverno mais complicada que pude achar para embelezar um texto feio. Ela tão cheia de não-me-toques! Não é qualquer um que quer processar manualmente 10 mil flores para ter apenas um quilo de açafrão (especiaria) no final, não é? Essa sou eu. Dou um trabalho danado. Costumo compensar, mas, ao que parece, saio bem cara no final das contas.

Mas sim. Sou bonita, em algum aspecto. E forte. É o que dizem: flores de inverno são mais fortes do que flores de verão. Não sou girassol, rosa vermelha, orquídea, nada assim. Gosto do frio. E diria que suporto toda a estação. O que não costumo gostar muito é da primavera, pasmem. Verão me deixa com náuseas. E quando começa a esfriar lá fora, então... Céus! Maldito outono que nunca passa! Podem levar pra longe todas as outras estações, porque sou chata: só floresço quando Inverno chega. E agora nem sei em que estação estamos – quero dizer, estou. Sei que não florescerei tão cedo, que vou demorar a me acostumar com esse calendário estranho sem Inverno, sem frio. Só um calor desconhecido e desconfortável.

Saudades à parte, me considero uma flor de inverno “velha de guerra”. Já aguentei tanto dessa estação, que diria que já posso me aposentar. É hora de não desabrochar mais, sabe? Inverno vem, Inverno vai. Inverno não sente falta de flores, Inverno às vezes é frio demais. Talvez eu largue mão de ser flor de açafrão pra ser flor de verão, um dia. Quem sabe outra estação que não maltrate tanto. Porque já não compensa ser flor de quem nunca fica, e me esmaga, indiferente. Esse açafrão não suportaria mais um inverno interno do meu Inverno.

É hora de lembrar como é o sol.

Texto escrito para o Flores e Flechas - blog da Mima - por seu aniversário de 3 anos.

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

Dizem das flores que as mais espinhentas são as mais duráveis, mais belas, mais inacessíveis. Seria uma proteção natural? No entanto, quem as alcança, tem uma sensação muito melhor, eu acredito. Portanto, bem vindas as "flores de inverno". Adorei essas metáforas e analogias, Deyse. Meu abraço. Paz e bem.