terça-feira, 24 de maio de 2011

Pedaços de vergonha, medo e saudade (não necessariamente nessa ordem)


Ela às vezes acorda de cabeça pra baixo, com alguns sentimentos revirados e outros intensos demais. De vez em quando dá um medo de existir! Medo de não sonhar novos sonhos ou de esquecer os que já tem. Medo de estar feliz às vezes, mas nunca ser alegre. Medo de existir. Medo de ter medo. De ficar sempre em cima do muro. Medo dos seus altos e baixos, idas e vindas. Medo de outras chegadas, e das despedidas. Medo de acordar vazia, dormente. De perder o que tem de bom por dentro. Ela tem pavor de se tornar só "mais um número frio, congelado, insensível"*. Medo de perder tempo, perder o amor, a cabeça ou a paz interior - que é onde ela sempre achou que a paz precisa estar. Medo de "sempres" e "nuncas", e também dos "nunca mais".

Também já houve dias em que ela acordou com vergonha de existir. Um pouquinho de vergonha do nariz e muita, muita vergonha dos pés. Vergonha de ser tão mimada e preguiçosa, de não encarar desafios e sempre deixar tudo para a última hora. Ela já teve vergonha de alguns textos antigos. E dos diários que ainda guarda no quarto, não pra ler, mas pra não deixar que ninguém leia! Às vezes ela tem vergonha do próprio egoísmo. Tem vergonha de gostar de escrever na terceira pessoa do singular, mesmo achando que não é boa nisso, e que isso dá ao texto um ar de egocentrismo e um pouco de carência. Vergonha das vezes que falou sem pensar, e das vezes que não falou quando deveria. Vergonha de já ter sido crédula demais. De acreditar em meias verdades. De ter-se deixado levar. Vergonha de já ter caído as mesmas quedas, de novo e de novo. E das vezes que achou que era de aço.

E quase toda noite ela sente saudade. Da infância. Da adolescência. De dar tchau com as costas da mão no queixo. De brincar de ser criança, mesmo quando já tinha dezoito anos na cara. De girar até ficar tonta e cair. Saudade de quando saudade ainda era algo que cabia no coração. De ter alguma inocência sobrando pra contar a história. Saudade dos tempos de colégio, das valsas no meio do corredor. De quando o tempo não corria contra ela. Saudade das músicas que se perderam, e das que eram tão boas, mas marcaram tempos ruins. Ela sente um pedaço de saudade de acreditar no que as pessoas dizem, de procurar o melhor nelas e no mundo. Sente falta dos sonhos que ela já perdeu e dos que agora sonha de longe. Saudade do céu - acredite. Ela tem uma saudade rasgada de não ter noção do perigo que é brincar no terraço, brincar com fogo e brincar de se apaixonar. Sente falta de viver numa nuvenzinha cor-de-rosa de ingenuidade. Saudade de não ter tantos medos e vergonhas. De só pensar em ler seus livros, ouvir suas músicas e escrever nos seus diários bestas e antigos. Saudade de escrever cartas em papel... E ela sente muita, mas muita saudade de não acordar quase todos os dias aos pedaços.

A cada dia eu sou um pedaço de mim.

4 comentários:

Anônimo disse...

Esqueceu de escrever no final do texto:

Mas nada disso me faz falta pq antes eu não tinha meu Cambs do coração. Yaaaay!

;**


Alexandre Noronha

Anônimo disse...

O título já é um texto. Anna Deyse as imagens e legendas ou o que se segue abaixo delas é o que me faz voltar ao seu Blog. É automático: imagem, legenda e depois o texto J.P.

Babi Rodrigues disse...

Seus textos são sempre lindos! Incrivelmente lindos..
Pena que agora não dá mais pra copiar e colar, porque eu adorava copiar e colar...rsrrsrs
Parabéns pelo texto mais uma vez incrível!

Lia Araújo disse...

Me falou muito seu texto, vc nem faz ideia. Falou tanto que se comentasse mais eu que ficaria com saudade e vergonha ( não necessariamente nessa ordem)...

Uma vez te prometi que sentiria um carinho por tua caixinha independente de qualquer coisa... essas minhas promessas... mas, continua de pé... é só falta de tempo mesmo.

bjo.